| A herança |
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Da minha janela vejo parte do rio sujo e pesado. Parece lava de um vulcão preguiçoso, ajeitando-se no terreno irregular. Sinto que um rio similar, mas de negros pensamentos e piores sentimentos, corre dentro de mim.
Sou o último escritor de uma geração idolatrada, cuja menção se fazia obrigatória em qualquer livro, em todos os manuais literários desta terra. Sou filho do meu tempo e me inspirei em Glauco Rodriguez Peña, que se inspirou no mestre Ricardo da Fonte, que copiou descaradamente as obras de William R. Brown, que plagiou Jean Pierre Cardeau, que lia e imitava Edmundo Langoni, que mergulhou no passado e reescreveu a obra do Monge da Montanha, que traduziu os escritos do Profeta e os apresentou como se fossem seus e o profeta legendário se inspirou em... Sou o último copista de uma geração dourada e legendária (especializada em copiar e reinventar) e serei copiado por esse jovem, magro e com olheiras, que me olha totalmente deslumbrado e sonha, dia e noite, com uma glória que não existe. |


