Fragilidade PDF Imprimir E-mail
Em poucos segundos, pouquíssimos, como bem anunciava a propaganda, alcançava a velocidade prometida, mas não parecia que tantos cavalos se mexiam lá dentro, turbinavam o carro, fazendo-o vencer com elegância e sem muito barulho à distância renovada a cada milésimo de segundo.
Acelerou. O sol batia no pára-brisas, dificultando um pouco a visão. A estrada se abria inteira, livre, totalmente à sua disposição.
Ele virou à direita e entrou num caminho secundário. As sombras do entardecer brincavam com as árvores.
Acelerou. Todos os benditos cavalos, oprimidos dentro do motor, empurraram o carro para frente.
Uma folha de papel, surgida quem sabe de onde, jogou-se na frente do carro, suicidando-se. Sorriu. Acelerou.
Um passarinho lerdo desceu bem na frente do meteoro mecânico. Suicidou-se.
Nada detinha aquele carro.
Um cachorro magro e desnorteado vacilou, parou no meio do caminho e foi engolido pela máquina veloz. Um barulho assustador, um cheiro de sangue fresco subiu das entranhas do veículo.
Diminuiu um pouco, preocupado. A estradinha desenhava curvas à direita e curvas mais pronunciadas à esquerda.
Acelerou. A vida era bela e ele tinha o domínio dela. Pisou fundo, esquecendo num instante o passarinho suicida, o cachorro indeciso.
Acelerou de novo, sentindo a força da máquina debaixo dos seus pés.
O entardecer mastigava de leve a realidade, preparando a chegada da noite.
Olhou para um lado e viu as árvores correndo alucinadamente no sentido contrário ao carro. Tudo vibrava. Ele também.
Uma curva para um lado, outra para o lado contrário. Curva para lá, curva para cá, apenas reduzindo um pouco, sem mexer no cambio que era automático.
De repente, surgindo do nada, um homem bem no meio da estrada, esticando os braços como para defender-se da máquina agressora que avançava sobre ele.
 

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