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Pelas cortinas entreabertas entrava o sol em ondas luminosas e continuadas. Tinha dor de cabeça, era uma dor intensa, uma dor que vinha bem lá de dentro ou de muito longe. Levantou-se confuso, perturbado, sem saber exatamente onde estava, o que fazia, nem quem era. Os pés pesavam toneladas, a alma doía. Inquietava-o aquela revolução silenciosa no estômago ou em algum órgão muito perto dele. Caminhou até a janela, queria fechar as cortinas, porém, abriu de par em par a janela e uma brisa quente bateu no seu rosto e quase o derrubou. Uma cidade estranha, desconhecida, totalmente inédita se revelou. Uma cidade que ele não podia apreciar totalmente, não podia distinguir, perceber com aqueles olhos pesados, com aquele cérebro povoado de nuvens, de fumaça e de perguntas. Olhou para dentro do dormitório. Viu a cama desarrumada, uma almofada no chão, as roupas atiradas por todos os cantos e a calcinha preta, pequena, quase transparente, deliciosamente sexy, pendurada descuidadamente no respaldar de uma cadeira. Lembrou do bar, da música, da bebida, da mulher divinamente sensual, decididamente linda e perigosa, lembrou como se enroscaram na cama e como se divertiu e gozou como nunca. Sorriu porque, na realidade, não sabia se realmente tinha acontecido tudo aquilo ou se simplesmente tinha sonhado, porém, a calcinha estava ali e era uma prova material de que uma mulher, espetacular ou não, estava ou tinha estado com ele, naquele recinto, naquela cama. Fechou e abriu os olhos, sentia como se lhe pesassem as pálpebras, as pernas, os pensamentos. Abriu o frigobar e tirou uma garrafa de água mineral, bebeu longos goles que não o refrescaram. Nunca mais, nunca mais cerveja com tequila, prometeu enquanto duvidava da própria promessa. Passeou o olhar pelo quarto, viu a chave na porta, a roupa feminina no sofá, todas aquelas coisas que elas sempre carregam na bolsa, tudo desordenadamente distribuído sobre a mesa: o telefone celular, dois ou mais batons de diferentes cores, alguns cartões, um pente, lenços de papel, tantas coisas que ele não conseguia assimilar, codificar, entender, captar totalmente. Pensou que ela estava no banheiro, talvez na banheira de hidromassagem, recuperando-se, preparando-se para outra sessão de luxúria e prazer. Caminhou até o banheiro, tropeçando num sapato ou algo parecido. Abriu a porta, procurou-a com o olhar e não pode conter um grito de terror... ela estava ali, na banheira, e ele não sabia se continuava gritando, saia correndo ou o quê...
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