Amigos
O LIVRO INFINDÁVEL
Pedro Du Bois

Folheio o livro
infindável
em temas
e termos
e resumos
e resenhas
e cálculos
e artifícios
e artilharia
pesada

releio o texto
e desconcerto
palavras em letras
indispostas
aos olhos
fechados

o livro infindável
multiplicado
em páginas
repete passagens
de errados personagens:

                  os mortos
                   os amortecidos
                    as mortalhas
                     a sensação indecifrável
                      do mistério na página
                       seguinte.

Absorvo o tema e o contemplo
em escala: a janela
do mundo transportada
à página anterior.

O livro infindável traz
a perda de tempo. O tremor
da terra devastada.

Nenhuma vírgula acrescentada
ou diminuída. Nenhum ponto de vista
encontrado ou escondido.

Na infindável história em capítulos
e subtítulos o livro se depara com a vontade
férrea do leitor. O livro nas mãos.
Em qualquer cidade, na espera, na angústia
da ante-sala do hospital. A aproximação do clímax
e a antecipação da vida repetida.


Uma vez estive aqui penso

como leitor
e folheio a página infindável
do livro. Pela lombada calculo
a quantidade de folhas e a multiplicidade
                                          das páginas.

Não imagino o peso entreolhado no vértice
do conto, do romance; no hemistíquio
do poema declamado.

Infindável o corpo se junta ao livro
e sonham finais infelizes, finais
acalorados em beijos. Finais
inexistentes.

                  Ao contrário do prometido
o mundo se revela ingrato ao leitor
amigo: esmigalhado entre
conceitos e a concepção da história.
 

O livro infindável confia
ao homem a leitura do tempo
em espaços intercalados.

Dimensão: sonho a continuação
da história em palcos, em cinemas
desfeitos em estacionamentos.

A infindável história destruída
no silêncio dos automóveis estacionados.

O som da buzina, o ranger dos freios,
o personagem atropelado sobre o friso
central do palco: a rampa leva o carro
ao centro e o desfaz em capítulos.

             Infindável livro: melancólico
em tristezas disfarçadas; saudoso
no sono e o sonho de páginas percorridas
com a ponta do dedo molhado no virar
a página seguinte e seguinte e seguidamente
destituída do caminho.

A mesma página reduz dramas
em comédias. A tradução em introdução.
O remédio entre duas e três
palavras ditas em repetições.

A dimensão inexata: leio e releio a página atual
e busco ao molhar o dedo a folha seguinte.

              Infindável parábola metaforicamente
recolhida ao dia. O rubor da face diante
do desconhecimento do elenco formatado
na recontagem da história.

       Leio o título e tateio o livro:
sobram espaços vazios de leituras
não iniciadas. A infindável vida
                     desregrada aos óbices
                     e o sexo permissível
                     aos homens de vontade
                     insubmissa à criação
                     literária.

          O livro: capa, apresentação, dedicatória,
                     prólogo, sobrecapa, texto.
          O primeiro capítulo: a letra decora
                     o início do texto. A sobrecarga
                     de tinta sobre a palavra dita
                     em mágica retórica.

          Iniciado, o livro se demonstra infindável
em vicissitudes e tragédias. O riso esplendoroso
dos adjetivos e a aspereza das palavras
em cantos dedilhados como músicas.

            Permanece o infindável assunto:
            remete o leitor à profundeza
                                  grandeza
                                  altivez
                                  ao alto espaço
                                  percorrido
                                  na civilização
                                  incorporada
                                  como texto.

      Fecho o livro, apago minhas marcas
      sobre o insucesso da leitura. Destaco
      em riscos o ranger dos dentes.

O livro permanece infindável na estante
onde repousa o instante inicial do personagem.

 
(Pedro Du Bois, inédito)
______________________________________________________________
 
 
Invernos
Rossyr Berny
 
 Não durmo a noite inteira
pensando nos pássaros ao relento
 
O vento
sopra-os aos empurrões
de um galho a outro
dos galhos ao chão
 
Não durmo a noite inteira
pensando nas pessoas ao relento
 
O vento
sopra-as aos empurrões
de uma calçada a outra
de um desabrigo a outro
 
(Alguém não dormirá pensando em mim,
perdido na fúria dos vendavais
sem âncora e sem luz?)
 
Meus abraços e meu amor universal
ressuscitarão das tempestades
os pássaros e a humanidade
à calmaria dos portos do coração
 
Agora descansa e dorme
sob a vigília de Deus
o sono quente dos abençoados
 

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.